Os intelectuais estão nas ruas

Ramon Diego Câmara Rocha

Ah! Quão doce nos sussurra a vaidade intelectual, a palavra intelectual é carinho e afago na face dos grandes egos e suas engenhosas perdas de tato com o mundo social. Percebo uma mudança drástica na intelectualidade moderna, na busca pelos antídotos para os orgulhos acadêmicos e a mediocridade criticada; assim como outras palavras, que ao decorrer do tempo mudaram drasticamente de sentido, tendo em vista a pretensão da utilização destas em seu meio social, com a palavra "Intelectual" não poderia ser diferente.

A figura do intelectual enquanto "ser do saber", o "eremita", "o dragão dos castelos de mármore" se dissipa em meio a uma política do fazer cultural que envolve prática, ou seja, ação e teoria, planejamento, de forma muito mais orgânica e predisposta a funcionar. Digo isto, pois não consigo não conceber Chico Science, agente cultural de nítida capacidade organizacional e artística, com seu movimento manguebit e suas ações de impacto em todo Recife, como um intelectual; assim como não consigo não conceber enquanto intelectuais, Evando Santos (Homem livro), com sua biblioteca, apoiada em livros e vontade, Cartola, Patativa do Assaré, Nelson Gonçalves e Noel Rosa.

Talvez o peso da palavra, tal como pedra em suas costas, não permita que se julguem ou se considerem como tais, afinal, como poder superar as bofetadas que nos foram e ainda são dadas pelos pudores acadêmicos e o protecionismo de certas entidades que se julgam mantenedoras das verdades "intelectuais"?

O intelectual não está contido somente nos prédios espelhados, tampouco repousa soturno, nas cadeiras de grandes instituições, os intelectuais, senhores, estão nas ruas, tomando seus bálsamos inspiradores em algum bar, ao nosso lado, nas feiras, entoando cantigas, com ou sem títulos que os permitam fazer isso, tecendo em cordéis, como Gauchinho faz, as estruturas sociais que conhecem em trabalho e suor.