Discurso de Instalação

Discurso proferido em 12 de dezembro de 2012 pelo acadêmico Jorge Henrique Vieira Santos, titular da cadeira de nº 04, primeiro Presidente da Academia Gloriense de Letras.

Prezado senhor Vice-Presidente do Conselho Estadual de Cultura, Prof. Dr. Luiz Fernando Ribeiro Soutelo;

Prezado senhor Domingos Pascoal de Melo, neste ato representando a Academia Sergipana de Letras, em cujo nome saúdo os demais caros integrantes da mesa;

Excelentíssima Senhora Luana Michele de Oliveira Cacho, Prefeita de Nossa Senhora da Glória, em cujo nome cumprimento todas as autoridades presentes;

Minhas confreiras e confrades, membros fundadores da Academia Gloriense de Letras;

Senhoras e senhores;

Glorienses;

Pensei em iniciar minha fala afirmando que, embora nós da Academia Gloriense de Letras ainda sejamos pequenos, alimentamos grandes sonhos. A partir do confronto entre o que se é e o que se pretende ser, intentava discorrer sobre as possibilidades que, por certo, se abrirão à nossa frente em função dos propósitos que nos motivam. Falaria de nossos projetos e dos frutos que, eventualmente, estes possam vir a produzir. Anteciparia, entusiasmado, o sonho de que, no decurso dos anos, futuros grandes expoentes da literatura produzida em terras glorienses possam vir a ingressar em nosso corpo acadêmico, exaltando-o com suas obras, efetivando o anseio manifesto em nosso lema: "Ad gloriam per litteras". Falaria dos eventos latentes no desejo de realizar-se e remeteria todos aos versos profundos e concisos da lavra da ilustre poeta sergipana Iara Vieira, patronesse da cadeira de nº 04 que, honradamente, passo a ocupar, quando revela:

(...)

O segredo da minha força

Está nas asas desse pássaro

Prestes a decolar

Esperando meu consentimento.

(Poética in Esses tempos ad/versos, 1984).

Minha fala, se assim o fosse, exaltaria o porvir e suas glórias possíveis, deslocando do ato presente o foco de minhas palavras. No entanto, ressoou em minha lembrança a recomendação da inesquecível Cecília Meireles:

Não faças de ti um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

(...)

(Cântico XXIII in Cânticos, 1990).

Seu alerta despertou-me para a ênfase que deveria votar à ação, em sua essência, em sua plenitude. Assim, optei por partir de um enunciado, atribuído a "Mahatma" Gandhi, que circula pela rede mundial de computadores e encerra um profundo saber. Apesar da incerteza que paira sobre sua autoria, pois a internet lança a noção de autor a novos patamares e a reconfigura, é dele que me valho agora como epígrafe de minha fala, pois muito nos revela do momento presente:

Você nunca sabe que resultados virão de sua ação, mas, se nada fizer, não existirão resultados.

Dessas sábias palavras ressaltam dois aspectos fundamentais relacionados à ação: sua imprevisibilidade e sua necessidade. Toda ação carrega em si a essência do novo, do início. Desde Heráclito, sabemos que "não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Mesmo quando repetido um mesmo ato, não se repete sua circunstância, nem seu agente. O caráter inaugural da ação enseja a possibilidade de inúmeras consequências e, portanto, sua imprevisibilidade. Mesmo assim, embora intangíveis os efeitos de nossos atos, agir é condição da plenitude da existência, agir é condição da própria humanidade.

A filósofa Hannah Arendt, convidando-nos a refletir sobre a condição humana, enfatiza o papel fundamental da ação ao afirmar que a inserção no mundo humano se dá somente por atos e palavras, sem os quais a própria vida, em seu sentido não biológico, não seria possível. E assevera:

Não são ideias, mas eventos que mudam o mundo.

(A Condição Humana, 2007).

Certamente, sabemos que os atos realizam aquilo que os sonhos já haviam antecipado. Contudo, a transformação, de fato, resulta da ação, que além de seu caráter imprevisível, "tende a violar todos os limites e transpor todas as fronteiras" (ARENDT, 2007).

A título de ilustração, permitam-me retomar aqui uma alegoria que elaborei para me referir ao nosso inesquecível Padre Leon Gregório, Patrono maior de nossa AGL, quando, em janeiro de 2011, este partia para o plano superior. Naquela reflexão eu enfatizava que não apenas sua vida, mas, sobretudo, sua ação trouxe uma renovação e uma transformação do mundo e, para me fazer entender, disse que, da mesma forma, quando atiramos uma pedrinha no imenso mar, este se torna um novo mar, a um só tempo igual e diferente de si mesmo. Embora vejamos as mesmas águas, elas passam a guardar um segredo recôndito em suas profundezas. A novidade do mar é conter uma pedra a mais.

Cada ser humano que nasce revigora o mundo como uma nova pedrinha depositada nas profundezas da vida. Algumas delas, no entanto, permanecem imóveis no fundo do oceano, fixas e acomodadas num único lugar. Embora sejam a essência da novidade, não produzem, no decurso dos anos, mudanças de grande alcance. Outras entendem a linguagem das águas e não se imobilizam, mas rolam. Seu movimento interfere no próprio movimento das águas que as envolvem, modificando marés futuras. As pedras que se movimentam, às vezes, agrupam-se em volumes enormes e, unidas, edificam barreiras nas profundezas. Barreiras assim são capazes de mudar, definitivamente, o curso das águas.

Padre Gregório não ficou imóvel, não se permitiu ser apenas uma pedrinha estática no oceano, mas moveu as águas. Suas palavras e atos puseram em movimento sua vida. Foi o que disse e fez em sua jornada que determinaram o alcance da renovação do mundo que seu tempo de existência entre nós teve o poder de produzir. É do poder dessa ação que busco tratar aqui, ação que desencadeia dispersas reações e se propaga ilimitadamente produzindo transformações, modificando o curso das águas, renovando vidas. Essa ação é necessária. Por isso estamos aqui.

Para compreendermos o imprevisível alcance e a necessidade da ação que inauguramos e atualizamos neste momento, é preciso que lancemos, rapidamente, o olhar ao passado remoto e atentemos para os jardins que abrigavam o túmulo do herói ateniense Academo. Podemos ver o pupilo de Sócrates, na esteira dos passos de seu mestre, a inquirir questões do saber aos seus discípulos. Não suspeitava Platão, quando fundava sua escola filosófica na magnânima Grécia, de que sua ação singular teria reflexos dispersos e longínquos, muitos séculos depois, na ação do cardeal de Richelieu, na França, e que esta, por sua vez, atravessaria o oceano e também ecoaria no Brasil, na iniciativa do ilustre grupo ciceroneado pelo magistral Machado de Assis. Tampouco suspeitava o filósofo de que tais reflexos, propagados ad infinitum, chegariam às terras de Serigy motivando a plêiade liderada pelo poeta Antônio Garcia Rosa e, finalmente, alcançariam o alto sertão sergipano, tendo sido evocados pelos atos e palavras de um admirável amante das letras, senhor Evando Santos, e mobilizariam oito idealistas, culminando no ato solene que presenciamos neste momento. Aquela ação do filósofo se dispersou e se converteu em reações que se propagaram em cadeia, todas elas sendo, ao mesmo tempo, iguais e diferentes, próximas e distantes do ato original, pois que cada uma inaugurou transformações outras, produzidas por agentes outros, em contextos outros.

E eis que em nosso lugar e em nosso tempo, diante da premente necessidade de uma ação transformadora que se nos impõe, inauguramos mais uma academia de letras no Brasil, a primeira no interior do Estado de Sergipe. O quê, além dos resquícios do ato platônico nos teria motivado?

Moveu-nos a vontade de oferecer nosso quinhão para a construção de um país de leitores. Moveu-nos o anseio de cultivar e desenvolver as letras de nossa terra, de preservar sua memória cultural e de ver democratizado e ampliado o acesso aos bens tangíveis e intangíveis produzidos em nossa língua. Moveu-nos a necessidade de revelar a riqueza de nossa literatura que ainda, para muitos, encontra-se oculta no mistério das letras. Moveu-nos o desejo de, assim como fez nosso patrono-mor, transformarmos a própria existência em instrumento para a emancipação de outros brasileiros, nossos irmãos. Moveu-nos o amor que votamos à nossa cultura. Moveu-nos a recusa em nos resignar à imobilidade, a recusa em aceitar que a realidade é da forma como a vemos e que não há o que se possa fazer para transformá-la. Não aceitaremos como saldo de nossa existência a constatação de que nada fomos, além daquela pedra inerte, depositada nas profundezas do mar, indiferente a tudo à sua volta, incapaz de agitar as águas. Moveu-nos a própria necessidade da ação. Como pregava "Mahatma" Gandhi, sejamos, pois, a mudança que desejamos ver no mundo.

Por certo, desejamos que a AGL inaugure um movimento desencadeador de reações que, propagadas no tempo, por meio das práticas de leitura e escrita, possam ajudar a promover, numa perspectiva política, cultural e filosófica, a emancipação de nosso povo. Indubitavelmente, desejamos que seja a AGL um núcleo disseminador da cultura gloriense e sergipana, que seja um polo agregador de homens e mulheres de ação, um elemento aglutinador de experiências culturais enriquecedoras. Mas como desvelar o segredo da força contida nas asas do pássaro que se prepara para o voo? Como antever das alturas o chão que ainda nos apoia os pés? Como saber o sabor do fruto que ainda repousa latente na seiva bruta? Somos donos, somente, de nossos desejos; capazes, apenas, de nossa ação.

Vamos, pois, sem caminho marcado, como nos sugere a poesia, confiantes na firmeza dos propósitos que nos movem, na verdade do anseio que nos alimenta. Não haverá resultados se nada fizermos!

É certo que a missão a que nos propomos é grave. Repousa sobre nossos ombros uma grande responsabilidade. Estejamos, pois, conscientes. Como fundadores do sodalício gloriense, havemos de ser dignos e de honrar a herança humanística, literária e cultural dos ilustres brasileiros, patronos das cadeiras que passamos a ocupar, e havemos de efetivar em atos e palavras o amor que votamos à cultura da nossa terra.

Assim, minhas confreiras e confrades, fundadores da Academia Gloriense de Letras, saibamos que nossa ação nesta noite solene não inaugura uma agremiação reservada aos seus membros, mas institui, por meio do compromisso acadêmico por nós assumido, um instrumento de disseminação das letras e da cultura, aberto a todos, voltado a todos da nossa cidade, do nosso Estado e do nosso país.

Oxalá a AGL possa, efetivamente, cumprir com os propósitos para os quais se constitui agora!

Obrigado a todos que, de alguma forma, concorreram para a realização festiva deste ato e a todos que, doravante, desejarem se somar ao nosso projeto.