Conferência Inaugural

12/12/2012

Palavras proferidas pelo Vice-Presidente do Conselho Estadual de Cultura, Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, na solenidade de instalação solene da Academia Gloriense de Letras

Senhor Presidente:

Senhoras e Senhores Acadêmicos:

Com muita honra atendo ao vosso convite para participar convosco deste momento e para trazer-vos uma palavra no instante solene em que instalais a Academia Gloriense de Letras.

Antes de tudo agradeço-vos a distinção, dizendo como o poeta - e são os poetas as pessoas que dizem as expressões mais profundas com simplicidade - que agradecer não é apenas pronunciar um obrigado, mas guardar fundamente, no coração, o gesto.

O vosso está guardado, com toda certeza.

Confesso-vos que, ao receber o vosso convite, que me transmitiu o Prof. Dr. José Araújo Filho, uma amizade que formei na convivência no Conselho Estadual de Cultura -, renovado pelo eminente Presidente, por e-mail, meditei muito sobre qual o tema que traria a esta sessão solene, sessão histórica que marca a vida de Nossa Senhora da Glória, de cada um de vós e, sobretudo, a de Sergipe.

Pensei, inicialmente, em inspirar-me no discurso inaugural que Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo proferiu, com a elegância de estilo e precisão dos conceitos, na noite de 20 de julho de 1897, na sala do Pedagogium, na então Capital Federal, ao instalar-se, solenemente, a Academia Brasileira de Letras.

Cheguei mesmo, Senhores Acadêmicos, a imprimir o discurso de Nabuco. Mas, a bom tempo, compreendi que melhor seria abordar a origem das Academias e o sentido que elas têm na vida das sociedades no mundo moderno, marcado pela instantaneidade da informação, nos dias em que a INTERNET aproxima povos e culturas, em que as chamadas redes sociais moldam novas formas de relacionamento.

Espero cumprir a missão, a que me haveis convocado, sem vos cansar, a fim de que não aconteça comigo o que ocorreu, nos anos oitenta do século XIX, com Ruy Barbosa.

Comemorando-se os trezentos anos da morte de Luiz Vaz de Camões, o cantor da epopéia portuguesa da conquista de terras em África, na Ásia e nas Américas, o Real Gabinete Português de Leitura promoveu uma série de conferências. Um dos conferencistas, Ruy Barbosa, usou a tribuna durante quatro horas, cansando evidentemente o auditório, que reunia a fina flor da sociedade carioca, a começar pela Família Imperial.

Dias depois, o jornalista Carlos de Laet, com uma ponta de ironia, publicava o comentário num dos jornais da Corte: "enfim, quando Camões morreu, um suspiro de alívio passou pela platéia".

Não quero que na vossa festa, Senhores Acadêmicos, isto aconteça.

Prometo a vós que tentarei limitar minhas palavras a bem menos tempo do que o de Ruy Barbosa. Usarei, se muito, aquele correspondente a uma aula.

A ORIGEM DAS ACADEMIAS

Vivemos hoje, aqui e agora, um momento cuja origem se perde em tempos imemoriais. Suas raízes estão fincadas na Antiguidade Clássica, na lendária Grécia, na ímpar Atenas, berço da civilização e da cultura ocidentais.

Lá, a noroeste da cidade, havia um bosque de oliveiras conhecido como "jardim de Academo", lembrando o herói ateniense - Akádemos, que teria revelado a Castor e Pólux onde estava sua irmã Helena, sequestrada e levada para a Ática.

Era este local que Platão - o filósofo grego - usava para encontrar-se com seus discípulos, em tertúlias filosóficas que influenciaram o pensamento ocidental.

Mais tarde, quando a Europa - cansada do longo domínio da Igreja Católica durante a Idade Média - rompe com o teocentrismo e coloca o homem - em suas várias dimensões - como o centro do pensamento, será na eterna Grécia que se vão buscar as raízes para revivecer, sob outra dimensão, a cultura clássica.

E então surgem as primeiras academias, como a Chorus Academiae Florentinae, de Florença, consolidando o nome Academia com uma das várias acepções que damos ao termo, ou seja, a reunião de escritores, artistas, eruditos e cientistas.

Já no século XVI Clement Morot referia-se ao Collège de France como "noble academie", numa demonstração clara de que o termo se firmara na Europa.

Durante o Renascimento muitas outras vão surgir, na Itália, como a Academiae Pomponiae, sob a influência de Pompônio Leti, durante o pontificado do Papa Paulo II, a Academia della Crusca (1592), a Reale Academia Nazionale dei Lucei, dedicada ao estudo das ciências naturais e da astronomia (1603), a Royal Society (Londres) e a Académie Royale de Sciences (1666).

Contudo, senhoras e senhores, a mais conhecida, a mais famosa, de todas é a Academia Francesa congregando um grupo informal que se reunia para debates e tertúlias literárias, entre 1620 e 1630, em Paris. O Cardeal de Richelieu, importante ministro de Luiz XIII, tomaria sob sua proteção esse grupo. Em 1635 conseguiu do rei a oficialização da Academia, colocando-a sobre o beneplácito do Estado e do monarca.

A missão da Academia centrava-se no culto da língua e da literatura francesas.

A Academia Francesa, uma das cinco academias reais que passaram a existir em Paris, sofreria, como muitas áreas de ação e do pensamento, as consequências da Revolução de 1792, sendo suprimida com as demais e, em 1795, reunida ao Instituto de França. Este foi criado com o objetivo de "recolher as descobertas e de aperfeiçoar as artes e as ciências".

Reorganizado o Instituto, sob o Consulado de Napoleão Bonaparte, foi dividido em "classes" - a segunda correspondia à Academia Francesa. As academias ressurgiram sob o reinado de Luiz XVIII, ainda que sofressem o expurgo de alguns dos seus membros, ligados ao bonapartismo.

À seção de Geografia da Academia de Ciências pertenceu, como associado estrangeiro, um brasileiro: Dom Pedro II.

Aliás, foi um resfriado que sofreu no frio inverno de Paris, de 1891, quando ele saiu da Academia, aonde fora votar em Potier, que o levou à morte em 5 de dezembro daquele ano.

É a Academia Francesa, com seus ritos e seu espírito gregário, o modelo para as outras academias, mundo afora, como a Brasileira de Letras.

Portugal teria a sua Academia Real de História de Portugal, instituída por Dom João V, em 1720, a qual desapareceu em 1776, e a Academia de Ciências criada em 1779, no reinado de D. Maria I.

Dentre outros brasileiros, a integrou José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, escolhido quando andara pela terra lusa, regendo a cátedra na Universidade de Coimbra.

No Brasil, ainda que vivêssemos numa sociedade de analfabetos e de poucos letrados, sem imprensa, sem bibliotecas públicas, sem voz, com medo da Coroa, como dizia o Pe. Antônio Vieira, vicejaram algumas dessas instituições, bafejadas pelo governo colonial. Refiro-me às Academias Brasileira dos Esquecidos (1727), dos Felizes (1736), dos Seletos (1756), dos Renascidos (1759), na Bahia, e a Científica do Rio de Janeiro (1772).

Tiveram vida efêmera, mas serviram antes de tudo para mostrar que também aqui existiam as preocupações em produzir-se pensamento e literatura - ainda que limitados pela distância da Europa e pelo meio social.

Essas academias, de pura inspiração européia, eram associações literárias onde se reuniam os letrados da terra, a fim de ler seus trabalhos em prosa ou verso, e algumas vezes as reuniões adquiriram um caráter de agitação ideológica, pois chegaram a discutir os ideais revolucionários da Europa do século. Contudo, esta atitude excepcional, uma vez que na literatura não encontramos o reflexo dessas ideias, e nem de toda agitação fabulosa que dominava a colônia, política e socialmente. A posição normal dos escritores era de puro academicismo, no sentido pejorativo da palavra.

De qualquer maneira, se bem que nem sempre usadas de maneira política, as novas ideias europeias entravam no Brasil, pela importação das Academias. Aí, nestes círculos fechados, os escritores debatiam seus pontos de vista, mas eles nada influem nos acontecimentos brasileiros e nem chegaram a adquirir verdadeiro prestígio popular. [WEY, Válter. Língua Portuguesa, 10ª edição, São Paulo: Editora do Brasil, 1965, p. 35]

Em 1829, com a aprovação de Dom Pedro I, aparecia a Academia Nacional de Medicina, ainda hoje em funcionamento no Rio de Janeiro.

A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Entretanto, a grande instituição cultural brasileira, já no século XIX não é uma academia de letras, mas o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado por um grupo de homens de pensamento e ação, à frente dos quais se encontravam o Cônego Januário da Cunha Barbosa e o Marechal Raimundo José da Cunha Matos.

Colocado sob a proteção imperial em sua fundação em 1838 - Dom Pedro II, dizem os seus biógrafos, teria presidido a mais de quinhentas das suas sessões, o Instituto tornou-se o centro das atenções da sociedade brasileira durante o século XIX, desenvolvendo trabalhos não apenas de natureza histórica ou geográfica, mas promovendo o memorialismo, reunindo acervos, aconselhando o governo a ensejar a realização de expedições científicas, de natureza etnográfica, no País, como a chamada "comissão das borboletas" dirigida por Gonçalves Dias e que percorreu várias províncias do Império, coletando informações, mesmo que possamos fazer algumas restrições ao seu resultado.

(...) forma-se o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (O IHGB), congregando a elite econômica e literária carioca. É justamente esse recinto que abrigará, a partir da década os recantos brasileiros (...)

E, na década seguinte

(...) se afirmaria como um centro de estudos bastante ativo, favorecendo a pesquisa literária, estimulando a vida intelectual e funcionando como um elo entre esta e os meios oficiais. Assim, com seus vinte anos, a suposta marionete [Dom Pedro II] se revelaria, aos poucos, um estadista cada vez mais popular e sobretudo uma espécie de mecenas das artes, em virtude de dar autonomia cultural ao país [SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador - D. Pedro II um monarca nos trópicos, São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 126].

Considero que amplitude da ação do IHGB e dos seus congêneres nos atuais Estados fez com que se adiasse a criação de uma Academia Brasileira de Letras, ainda que sob a monarquia a ideia estivesse em discussão.

Ela iria se concretizar com a República, passados os primeiros e incertos anos de consolidação do novo regime. Coube a iniciativa a Lúcio de Mendonça e Medeiros e Albuquerque, reunindo intelectuais de vários matizes políticos - monarquistas e republicanos - históricos ou não, na Revista Brasileira.

Pensou-se, inicialmente, que a sua criação se desse por decreto do Governo. Não vingou a ideia que seria uma lástima. Atrelaria a instituição ao poder público, às ingerências mesquinhas dos políticos. Os que, mais tarde, entraram na Academia representam acidentes de percurso na vida acadêmica.

Aliás, em carta a Lúcio de Mendonça, o Visconde de Taunay, um monarquista de quatro costados, apelou para que a solenidade de instalação não se verificasse a 15 de novembro para não dar ao ato um caráter oficial.

Criada em 1896, foi instalada, numa solenidade no Pedagogium na rua do Passeio, centro da Capital Federal, teve como seu primeiro Presidente Machado de Assis que, em seu discurso, afirmou "vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância".

Como sua inspiradora - a Francesa - foi constituída por quarenta cadeiras, cada uma com o patrono escolhido pelo seu primeiro ocupante. Dela herdou também os ritos do pedido de voto, dos sucessivos escrutínios, do cerimonial de posse, o fardão (a partir de 1910), o colar e a espada - a espada do defensor das letras e da literatura e da cultura.

No primeiro grupo, dois sergipanos pontificam: Tobias Barreto de Menezes, patrono da cadeira no. 38, hoje ocupada pelo Senador José Sarney ao qual devemos a segunda edição das obras completas do sergipano nascido em Campos do Rio Real, e Sílvio Romero, ocupante da cadeira no. 17, cujo patrono é Martins Pena.

Um brasileiro, vindo do Norte, do Estado do Pará (Óbidos), fundador da cadeira no. 28, ornada com o nome de Manoel Antônio de Almeida, tem uma ligação com Sergipe. Exerceu aqui, entre 1881 e 1882, a presidência da Província, nomeado pelo Imperador. É Herculano Marcos Inglês de Souza, o autor de "O Missionário", que marcou sua passagem por aqui com medidas educacionais avançadas para a época, com a criação de salas mistas nas escolas, a vitaliciedade da cátedra para os professores com curso normal e o fim da obrigatoriedade do estudo de Religião, ocasionando uma polêmica com o Vigário de Aracaju, o futuro Mons. Olímpio Campos, através da imprensa.

Era considerado o

(...) ousado Lutero de nosso ensino para piorar a educação das escolas sergipanas das benéficas e consoladoras doutrinas de Cristo [Gazeta de Aracaju, no. 114, de 3 de setembro de 1881. In: NUNES, Maria Thétis. História da Educação em Sergipe, Aracaju / Rio de Janeiro: Universidade Federal de Sergipe / Governo do Estado de Sergipe / Paz e Terra, 1984, p. 149]

Outros coestaduanos também pertenceram à Casa de Machado de Assis: João Ribeiro (eleito em 1898, na primeira vaga aberta), Laudelino Freire, que a presidiu, Aníbal Freire da Fonseca, e os irmãos Gilberto e Genolino Amado.

Se me é permitido sugerir, proponho a vós que estudeis a possibilidade de escolher um destes sergipanos ilustres para nomear uma das vossas cadeiras.

Mas ao longo da sua vida histórica, a Academia tem sido atacada por muitos, principalmente aqueles que, candidatando-se um dia, foram derrotados, ou ainda por que aqueles que não aceitando o "conservadorismo" da instituição renunciaram à imortalidade acadêmica. É o caso de Graça Aranha, que em seguimento à Semana de Arte Moderna rompeu com a casa, afirmando que ela devia mudar ou, então, desaparecer.

No entanto, as Academias não mudam, nem desaparecem como nos diz Pedro Calmon. Elas permanecem ao longo da história dos povos, adaptando-se, é verdade, aos novos tempos, vivendo todas do sucesso de seus membros.

Renovam-se com os acadêmicos, a sucessão, a gente nova, ou antes, os rebeldes de ontem, que cristalizaram na fina arte, a inconformidade brilhante, e deixam de demolir (que há tempo para cada coisa) e passam a edificar. Ao protesto de Graça replicou, magistral na opulência vocabular, um "conservador" de 1924, que fora por sua vez um revolucionário de 1890: Coelho Neto e o erudito criticismo de João Ribeiro. Correram os anos, e vários daqueles prosélitos da revolta coruscante substituíram nas poltronas azuis da serena Casa de Machado e Nabuco, os velhos escritores, os poetas parnasianos. [CALMON, Pedro. História do Brasil, v. 7, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 2397].

"C´ est la vie" - diriam os franceses.

E passados cento e quinze anos da fundação ai está a Academia Brasileira de Letras, cumprindo o seu papel de reunir a inteligência nacional. Está tão viva e desempenhando a sua missão agregadora, como o foi desde o início, dos diferentes, dos opostos no campo político e, mesmo, intelectual.

A ACADEMIA SERGIPANA DE LETRAS

Senhoras e Senhores Acadêmicos,

Minhas senhoras

Meus senhores

Se a Academia Francesa inspirou a Academia Brasileira, esta serviu de modelo para as Academias dos Estados e de muitos Municípios, como a que instalamos hoje nesta cidade - a primeira entre todas - aquela que terá a precedência entre as coirmãs, pois já se fala na criação de Academias em Itabaiana e em Tobias Barreto.

Como o Brasil, Sergipe criou primeiro o seu Instituto Histórico. Isto há precisos cem anos, completados no último dia 6 de agosto.

Mais tarde surgiria a Academia Sergipana de Letras.

Antecedeu-a a Hora Literária, uma instituição recreativa, fundada a 1º de abril de 1919, e transformada em "sociedade literária de caráter acadêmico autônomo", como decidiu sua assembléia geral de 17 de julho de 1927.

Suas reuniões aconteciam primeiro numa casa na rua de Japaratuba (atual João Pessoa), sob a presidência do General José Calazans, passando mais tarde os encontros serem realizados na residência do Coronel José da Silva Ribeiro, no alto do Santo Antônio, razão pela qual alguns autores a denominam de Hora Literária do Santo Antônio.

(...) nestas reuniões eram comuns a discussão de assuntos de natureza literária, a prática da récita, a comemoração de datas cívicas, a recepção de novos sócios e a homenagem a artistas e intelectuais afamados como Benvenuto Cellini, Gilberto Amado e Jackson de Figueiredo. Uma outra atividade desempenhada pela associação foi a publicação do jornal Santo Antônio que circulou de 1926 a 1930 e contava com a colaboração da Intelectuais festejados na província (SOUZA, Cristiane Vitório. A República das Letras em Sergipe, In: DANTAS, Ibarê. História da Casa de Sergipe, São Cristóvão: Editora da UFS, 2012, p. 115-116).

A transformação da Hora Literária em Academia, formalmente constituída, era questão de tempo, pois neste quase final de década, robustecia-se no seio da intelectualidade da terra a idéia de criação, para dedicar-se "ao cultivo e desenvolvimento das letras em geral e colaborar na elevação das artes e da cultura no Brasil e, de modo particular, em Sergipe (NASCIMENTO, José Anderson. In: ASL. O sodalício, Aracaju: J. Andrade, 1999, p. 9)

O quadro da época nos é traçado por Silva Ribeiro Filho.

(...) Na planície era crisálida; na colina criou asas que teriam de ser, no sombrio prognóstico de encanecidos e impenitentes pessimistas, a sua perdição. "Formiga - quando quer se perder..."

Realmente, em plena ascensão, quando mais viva e atuante - graças à cooperação de intelectuais amadurecidos -, autodissolvia-se a "Hora", para dar via a uma Academia de Letras.

A imolação gerou protestos, veementes mas inócuos, isso porque os meninos de ontem - tornando-se adultos - começavam a dispersar-se pouco a pouco (...) [RIBEIRO FILHO, Silva. In: Academia Sergipana de Letras. Obra citada, p. 14-15]

Tendo à frente do movimento o Poeta Garcia Rosa, que reunia intelectuais patrícios em sua residência, no Santo Antônio, ao lado da igreja da colina, foram dados os primeiros passos para constituir-se a Academia Sergipana de Letras, fundada finalmente a 13 de abril de 1929.

Para ela migraram dezesseis membros da Hora Literária, sendo os demais vinte e quatro acadêmicos escolhidos posteriormente.

Entre o grupo inicial, além de Garcia Rosa, encontravam-se nomes como Cleômenes Campos, Hermes Fontes, Magalhães Carneiro, Ranulfo Prata, Manoelito Campos, Rubens de Figueiredo, Clodomir Silva, Gilberto Amado, José Augusto da Rocha Lima, Dom Antônio dos Santos Cabral, Monsenhor Carlos Carmelo Costa, Manuel Santos Melo e Helvécio Andrade, expoente do Direito, da Literatura, da Memorialística, da Oratória Sacra e do Magistério, ainda, que alguns não mais vivessem entre nós.

Registra José Anderson Nascimento que, vinda da entidade antecessora, Etelvina Amália de Siqueira teria pertencido à plêiade de fundadores da nossa Academia. Era, sem dúvida alguma, um avanço em relação à Academia Brasileira de Letras que, como a Francesa, vetava a entrada de mulheres naquele cenáculo da Cultura.

Os registros disponíveis não nos permitem precisar as razões que levaram Etelvina de Siqueira a afastar-se ou ser afastada da instituição. Contudo, eu acredito que, na origem desta situação, está o princípio adotado pela ABL em não acolher, em seus quadros, as mulheres.

Esta situação seria rompida, na França, com a eleição da belga Marguerite Yourcenar (1980), de Rachel de Queiroz (1977) e de Núbia Nascimento Marques em nosso Estado (1978).

Ao saudar o Acadêmico Jorge Carvalho do Nascimento, o também Acadêmico Luiz Antônio Barreto, falecido neste ano, cuja memória pranteamos, lembra o sentido da Academia.

A ACADEMIA SERGIPANA DE LETRAS é, por excelência, uma casa de Sergipe. Nela o tempo renova, continuamente, a tradição da cultura dos sergipanos, na representação presencial das suas 40 cadeiras, todas elas efetivas e perpétuas. Cada cadeira um Patrono, um fundador, e ocupantes sucessivos, no conjunto orgânico que imortaliza a sua sobrevivência. Em que consiste, para esta casa de acadêmicos, a imortalidade? Ela não se faz pela leitura e nem pela escrita, não se tem pelos livros os seus autores, mas pela evocação das lembranças, sempre emocionadas, dos antecedentes, que ocuparam as cadeiras da casa.

É, portanto, pranteando a morte, com o carpir sentido da saudade, que revisitamos, um a um, os imortais do sodalício, como se faz nesta noite, quando a festa da entrada acadêmica imanta na formalidade estatutária, todo o sentimento da ausência (...) [Discurso de recepção ao Acadêmico Jorge Carvalho do Nascimento, proferido pelo Acadêmico Luiz Antônio Barreto na sessão solene realizada no dia 13 de julho de 2000. In: Revista da Academia Sergipana de Letras, no. 35 (2005), p. 38]

A ACADEMIA GLORIENSE DE LETRAS

Minhas senhoras:

Meus senhores:

Agora devo me referir a vós. Aqui, nesta cidade, com toda razão conhecida como a "Capital do Sertão", vós vos associais para criar uma Academia de Letras, irmanando homens de pensamento com o fim de incentivar e promover as letras, as artes em toda esta região.

Vós sabeis que muitos vos criticarão por haverdes constituído este sodalício, bem como por vos tornardes acadêmicos. Deveis sobrelevar as críticas dos que não têm razão. Lembrai-vos da frase de Rousseau segundo a qual "as injúrias são as razões dos que não têm razão".

"Ad gloriam per litteras" é o vosso lema, resumindo, com certeza, todo um programa de ação que apenas se inicia nesta noite e se projeta no tempo para o futuro, para o infinito, com um sentido mais amplo: glória para esta terra, marcada pela inclemência do tempo, mas habitada por um povo indômito que se supera para vencer a adversidade.

Mas também a glória cinge-vos a fronte pelo poder de criação, de cultivar as manifestações superiores do espírito, ao contribuirdes para incentivar a cultura em nosso Estado, ainda que devais lembrar-vos, com modéstia, que a glória do mundo é tão passageira quanto a chama de uma vela ao vento, como lembrava um sacerdote ao cruzar em várias direções a basílica de São Pedro na cerimônia de coroação do Sumo Pontífice: "sic gloria transit mundi" ("assim passa a glória do mundo").

A vossa glória, Senhoras e Senhores Acadêmicos, está na imortalidade acadêmica. Esta consiste em serdes lembrados, mesmo na crítica, por vossos sucessores nas solenidades de posse, quando a praxe acadêmica obriga-nos a nos referirmos ao patrono da cadeira e a todos os vossos antecessores, e pelos pósteros.

O vosso compromisso primeiro está na responsabilidade de, sendo pessoas situadas num espaço geográfico determinado, cantar a vossa aldeia como uma forma de serdes universais, como se expressava Leão Tolstói.

Deveis fazer, como José Jorge de Siqueira Filho, patrono da cadeira no. 30, da Academia Sergipana de Letras, em "A Sergipe"

Sirigipe, és a flor da montanha

desbrochada no denso espinhal,

és a garça que sempre se banha

na corrente de claro cristal.

Sirigipe, meu céu de primores,

Sirigipe, meu berço de flores

que em teu seio gentil me embalaste,

porque os dias da infância tão belos,

porque os doces primeiros anelos

entre os prismas de sol misturaste

[SIQUEIRA FILHO, José Jorge; In: LIMA, Jackson da Silva. História da Literatura Sergipana, v. 2 (Fase Romântica), Aracaju: Fundação Estadual de Cultura, 1986, p. 319]

Ao fazê-lo, eminentes Acadêmicos, deveis ter sempre em mente que a ação de um intelectual é também a de ser um elemento de transformação da sociedade em que se insere, discutindo a realidade que o cerca.

Outra função é esperada de vós. É a de contribuir para o agenciamento da atividade cultural, fazendo dela um elemento de coesão social, disponibilizando serviços que o Estado, muitas vezes, não tem conseguido cumprir diante das múltiplas responsabilidades em fazer superar as disparidades regionais, e, sobretudo, a de integrar parcelas ponderáveis de pessoas que vivem à margem da sociedade nacional.

Por fim, mas não por último, cumpre às Academias levantar as características das sociedades onde se inserem, identificando os fazeres, os agires e pensares do nosso universo cultural, não como um trabalho amorfo, de simples diletantismo, do exótico ou do diferente. Cabe-vos, portanto, preservar a memória social.

Sois, numa visão do tempo tríbio - passado, que é ao mesmo tempo presente e futuro, na teoria esboçada e discutida pelo Mestre de Apipucos, Gilberto Freyre, guardiães do ontem, desde a Grécia, voltados para o futuro.

Senhor Presidente:

Senhoras e Senhores Acadêmicos:

Autoridades presentes:

Senhoras e senhores:

Urge que eu encerre minhas palavras para não se repetir, aqui e agora, o comentário de Carlos de Laet. A festa é vossa e nela eu sou um mero ator coadjuvante.

No passado, quando um rei morria, os circunstantes - pois, como dizia Luiz XIV, os soberanos nascem, vivem e morrem em público, sem vida privada - saudavam o defunto e o seu sucessor dizendo "O rei morreu! "Viva o rei!". "Vida longa ao rei!".

Hoje, num outro momento histórico, eu me inspiro nessa tradição e direi "A Academia Gloriense de Letras surgiu!". "Vida longa à Academia!".

Muito obrigado.